No seu abraço

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São cinco horas de estrada até a gente se ver. É sexta-feira, está tarde e eu estou cansada depois de mais uma semana difícil no trabalho e em casa. Vou tirar um cochilo enquanto o ônibus para em cada uma das cidades que me separam de você. Vou acordar em cada uma achando que já chegou. Passamos os últimos cinco dias planejando o final de semana. Eu ia chegar, tomar um banho e juntos faríamos o jantar. Sonho com isso enquanto cochilo na estrada.

Depois do que parece uma eternidade, você me recebe na rodoviária com um abraço apertado e demorado, daqueles que confortam, que acalmam toda inquietação, toda dor, que me fazem esquecer de tudo e só estar ali, naquele momento, presente, desejando que aquele enlace não termine nunca porque eu quero ficar pra sempre assim, com nossos braços entrelaçados e meu nariz sentindo o seu cheiro de lar. Depois de um tempo que não sei precisar, um beijo longo com gosto de saudade, amor e carinho, finalmente estamos em casa. Não a minha, nem a sua. Um lugar diferente onde eu e você nos tornamos nós.

Esqueço o banho, esqueço o jantar e me jogo na cama vencida pelo cansaço. Deito a cabeça no travesseiro que tem o seu perfume. Meus olhos mal param abertos e acho que já estou sonhando antes mesmo de pegar no sono. Você se deita ao meu lado, me abraça e pergunta sobre o jantar.

Nós sabemos que todos os planos dos últimos cinco dias foram apenas desculpas para ficar mais tempo ao telefone ouvindo sua voz enquanto a distância era tudo o que tínhamos. Puxo seus braços em volta de mim e aperto mais o laço. Sinto seu coração batendo, sua respiração se acalmando. Nós dois entrando no mesmo ritmo. Não vai ter jantar, não vão ter planos. Não hoje. Porque hoje tem presença. Tem eu e você aqui. Amanhã a gente prepara o jantar, pede uma pizza, improvisa e mata a fome. Mas hoje, só fica do meu lado e vamos matar a saudade.

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Saudade…

saudade

Ah a saudade… Sempre assim, acompanhada de reticência. Sem fim. Mata-se uma, quando possível, e logo vem outra.

Poetas, músicos, filósofos, tantos já tentaram explicá-la. E mesmo dentre os mais belos e inúmeros poemas, canções e teorias, nada é capaz de defini-la.

Sempre única, singular, não segue qualquer tipo de regras ou leis. Atinge qualquer um, todo mundo, como bem entender. Nunca é igual, pra ninguém, em nenhuma circunstância.

Das infinitas tentativas de resumi-la em uma frase, a minha favorita é a que diz “saudade é a nossa alma dizendo para onde quer voltar” (Rubem Alves).

E são tantos os lugares para onde queremos voltar, mesmo que alguns não sejam lugares em si. São lugares, mas também são pessoas, momentos, histórias. Abraços.

A saudade transforma tudo em algo mais.

Como o vento que já não sopra mais simples e descomplicado. Ele é cheiro, um perfume do passado. Sensações, uma mão bagunçando meu cabelo. Som, uma música do seu violão.

Como as palavras que se transformam em gatilhos disparando balas de recordações.

Saudade é um vazio cheio de lembranças, ou seriam lembranças espalhadas no vazio?

São memórias do que foi, repletas do desejo do que poderia ter sido.

É guardar dentro de si, no mais fundo do coração, o amor pelo que já não existe mais.

É querer tudo de mais lindo que já fez parte de nossa vida em um mesmo espaço e ao mesmo tempo. Aqui, agora.

É manter o passado constantemente no presente.

É lembrar de algo a partir do nada que existe no espaço antes ocupado tão vividamente.

Porque saudade é o desejo da união, do reencontro, da presença, mesmo que saudade seja, por definição, ausência, separação.

Incoerência.