No seu abraço

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São cinco horas de estrada até a gente se ver. É sexta-feira, está tarde e eu estou cansada depois de mais uma semana difícil no trabalho e em casa. Vou tirar um cochilo enquanto o ônibus para em cada uma das cidades que me separam de você. Vou acordar em cada uma achando que já chegou. Passamos os últimos cinco dias planejando o final de semana. Eu ia chegar, tomar um banho e juntos faríamos o jantar. Sonho com isso enquanto cochilo na estrada.

Depois do que parece uma eternidade, você me recebe na rodoviária com um abraço apertado e demorado, daqueles que confortam, que acalmam toda inquietação, toda dor, que me fazem esquecer de tudo e só estar ali, naquele momento, presente, desejando que aquele enlace não termine nunca porque eu quero ficar pra sempre assim, com nossos braços entrelaçados e meu nariz sentindo o seu cheiro de lar. Depois de um tempo que não sei precisar, um beijo longo com gosto de saudade, amor e carinho, finalmente estamos em casa. Não a minha, nem a sua. Um lugar diferente onde eu e você nos tornamos nós.

Esqueço o banho, esqueço o jantar e me jogo na cama vencida pelo cansaço. Deito a cabeça no travesseiro que tem o seu perfume. Meus olhos mal param abertos e acho que já estou sonhando antes mesmo de pegar no sono. Você se deita ao meu lado, me abraça e pergunta sobre o jantar.

Nós sabemos que todos os planos dos últimos cinco dias foram apenas desculpas para ficar mais tempo ao telefone ouvindo sua voz enquanto a distância era tudo o que tínhamos. Puxo seus braços em volta de mim e aperto mais o laço. Sinto seu coração batendo, sua respiração se acalmando. Nós dois entrando no mesmo ritmo. Não vai ter jantar, não vão ter planos. Não hoje. Porque hoje tem presença. Tem eu e você aqui. Amanhã a gente prepara o jantar, pede uma pizza, improvisa e mata a fome. Mas hoje, só fica do meu lado e vamos matar a saudade.

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Deixa chover até o sol chegar

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Voltava para casa a pé, como de costume, quando começou a chover forte. Entrei em um café e decidi pedir um chocolate quente até conseguir seguir meu caminho. Fazia frio. Uma senhora entrou também fugindo da chuva e pediu pra sentar na minha mesa, a única com cadeiras vazias.

Ela encarou meu olhar distante e disse “seus olhos estão tristes”. Eu sorri e neguei com a cabeça. “Não estão, não.” E sem que eu dissesse mais nenhuma palavra, ela prosseguiu.

“Sabe, filha, tudo bem deixar os olhos ‘choverem’ de vez em quando. A gente se machuca por confiar demais nas pessoas. Às vezes a gente acredita no lado bom dos outros mais do que eles merecem. É por isso que a gente persiste nas pessoas até  quando elas já desistiram de si mesmas. Isso se chama esperança e, algumas vezes, amor. Cada um mostra e dá aquilo que tem de melhor em si. Elas mostram quem são e a gente custa a enxergar, porque nós não somos assim. E a gente vai fazer o quê? Parar de acreditar nas pessoas? De que jeito…o problema não somos nós. Não desista enquanto ainda houver forças pra lutar. Deixa chover até o sol chegar.”

Amor de ficção

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Ela não acreditava em amor. Ou ao menos fingia – inclusive para si mesma – que não. A verdade é que vivia em um misto de conformismo e esperança (esta última muito bem escondida em um canto fundo e escuro dentro do peito, lá onde – quase – ninguém tinha acesso).

De um lado ela sabia que não haveria ninguém capaz de lhe tirar o fôlego, de lhe transportar do mundo objetivo e lógico da razão, onde as coisas são preto no branco. Ela simplesmente não acreditava. Não entendia como um “simples” sentimento tinha tanto poder sobre uma pessoa, ou duas no caso.

Os filmes, os livros, as músicas, tudo que ela via, lia ou ouvia parecia colocar o amor como a coisa mais importante do mundo. Bullshit. Há muito mais do que isso pra se fazer. Cética sempre achou que era tudo pura ficção, a vida era outra coisa. A realidade era muito mais prática do que isso. Seu olhar, seus esforços e seus passos a levavam sempre em outra direção.

Ela se via, anos adiante, sendo aquilo que sempre batalhou para ser. Uma grande profissional, num pequeno e silencioso apartamento, em uma grande cidade, só ela, uma estante recheada de livros policiais e seus três gatos.

Por outro lado, no silêncio interno que sempre recusou escutar havia, bem ocultado pela carranca da objetividade, a esperança de um peito sobre o qual se recostar, de uma mão pra segurar, de um olhar de cumplicidade. De alguém que fosse companhia e a fizesse acreditar naquilo que ela mais temia.

Não era história. O amor existia e era sim a coisa mais importante do mundo.

Parada em frente ao cômodo repleto de espaço, seu olhar vazio vagava pelas prateleiras enquanto ela se lembrava.

Ele chegou sem avisar. Como uma brisa que invade a janela sem pedir licença. Súbito. Fez tudo ganhar novo sentido, novas cores. O mundo com amor é muito mais subjetivo. Não há palavra capaz de ser definida pelo dicionário, tudo é muito mais. Mil memórias, mil histórias.

E então o apartamento pequeno virou uma casa de madeira. A cidade grande se transformou em “à beira mar”. E o silêncio eles pretendiam preencher com as risadas de uma família, pai, mãe, filho, filhas.

Olhou para as caixas cheias e os armários vazios.

Agora já tanto faz. Ela sabia. O amor é ficção. Ela não acreditaria. Não mais.