Amor de ficção

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Ela não acreditava em amor. Ou ao menos fingia – inclusive para si mesma – que não. A verdade é que vivia em um misto de conformismo e esperança (esta última muito bem escondida em um canto fundo e escuro dentro do peito, lá onde – quase – ninguém tinha acesso).

De um lado ela sabia que não haveria ninguém capaz de lhe tirar o fôlego, de lhe transportar do mundo objetivo e lógico da razão, onde as coisas são preto no branco. Ela simplesmente não acreditava. Não entendia como um “simples” sentimento tinha tanto poder sobre uma pessoa, ou duas no caso.

Os filmes, os livros, as músicas, tudo que ela via, lia ou ouvia parecia colocar o amor como a coisa mais importante do mundo. Bullshit. Há muito mais do que isso pra se fazer. Cética sempre achou que era tudo pura ficção, a vida era outra coisa. A realidade era muito mais prática do que isso. Seu olhar, seus esforços e seus passos a levavam sempre em outra direção.

Ela se via, anos adiante, sendo aquilo que sempre batalhou para ser. Uma grande profissional, num pequeno e silencioso apartamento, em uma grande cidade, só ela, uma estante recheada de livros policiais e seus três gatos.

Por outro lado, no silêncio interno que sempre recusou escutar havia, bem ocultado pela carranca da objetividade, a esperança de um peito sobre o qual se recostar, de uma mão pra segurar, de um olhar de cumplicidade. De alguém que fosse companhia e a fizesse acreditar naquilo que ela mais temia.

Não era história. O amor existia e era sim a coisa mais importante do mundo.

Parada em frente ao cômodo repleto de espaço, seu olhar vazio vagava pelas prateleiras enquanto ela se lembrava.

Ele chegou sem avisar. Como uma brisa que invade a janela sem pedir licença. Súbito. Fez tudo ganhar novo sentido, novas cores. O mundo com amor é muito mais subjetivo. Não há palavra capaz de ser definida pelo dicionário, tudo é muito mais. Mil memórias, mil histórias.

E então o apartamento pequeno virou uma casa de madeira. A cidade grande se transformou em “à beira mar”. E o silêncio eles pretendiam preencher com as risadas de uma família, pai, mãe, filho, filhas.

Olhou para as caixas cheias e os armários vazios.

Agora já tanto faz. Ela sabia. O amor é ficção. Ela não acreditaria. Não mais. 

 

2 comentários sobre “Amor de ficção

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