Os desacontecimentos de Eliane Brum

Foto: Imprensa Feira do Livro

Foto: Imprensa Feira do Livro

“Toda vida é extraordinária.” Foi com essa frase que a jornalista, documentarista e escritora Eliane Brum chamou minha atenção durante uma entrevista antes de sua palestra no dia 14 de junho, na 15ª Feira Nacional do Livro de Ribeirão Preto. Tímida, ela disse que a escrita foi a voz que encontrou para se conectar com o mundo e ainda revelou que precisou de muito esforço para se acostumar a falar em público. “A palavra escrita me salvou”, declara.

Ao falar da carreira de jornalista, na qual já tem mais de 20 anos de experiência, Eliane Brum me fez, além de não desligar os ouvidos de suas respostas, refletir sobre a carreira que escolhi seguir há alguns anos. Eliane se sobressai entre os muitos jornalistas “famosos” da nossa época por sua sensibilidade e pelo humanismo que ficam mais do que comprovados em sua fala e em sua escrita. Ela, que se dispôs a escrever sobre “desacontecimentos”, nos prova que jornalismo nem sempre é notícia ruim.Pelo contrário. “Os desacontecimentos são notícias que não são notícias para a imprensa tradicional”, explica.

Para ela o desafio constante dos jornalistas é manter o “olhar de espanto” sobre tudo e todos à sua frente. “Não existem vidas comuns”, afirma. Há algum tempo escritora, Eliane Brum falou sobre algumas diferenças entre o jornalismo e a literatura em sua vida. “Jornalismo é despir-se de si mesmo. É isso que diferencia a reportagem de outras narrativas. Por outro lado, tem realidades que só a ficção suporta.”

Ainda falando sobre sua carreira, mas enveredando um pouco mais para o lado pessoal da sua profissão, Eliane Brum abordou questões como o tempo e a liberdade. “A máxima liberdade está ligada ao mínimo de dinheiro. Quanto mais dinheiro você precisa para viver, menos livre você é”, comentou fazendo referência à decisão de deixar as redações e a “carteira assinada” de lado, optando por uma liberdade maior de decidir o que fazer, quais matérias escrever, quais projetos tocar em frente. “Escolhi viver meu próprio tempo, sob meus próprios termos. E não mais o tempo dos outros.” 

Segundo Eliane Brum, a frase que ouviu de uma entrevistada durante a produção de uma longa reportagem sobre a morte, na qual passou 115 dias acompanhando uma mulher com câncer incurável, foi uma das coisas que a levaram a mudar seu estilo de vida. “No meu primeiro encontro com essa mulher ela disse algo que me fez repensar a questão do tempo. Ela disse ‘quando eu tive tempo descobri que meu tempo tinha acabado'”. De acordo com a jornalista, sua entrevistada se referia a um (mau) hábito que muitos de nós temos. Decidimos primeiro “ganhar a vida” para depois vivê-la, sem se dar conta de que ai pode ser tarde demais. “A partir disso, percebi que minha vida é aqui e agora. Para viver o presente eu preciso querer estar aqui e dar sentido para isso.”

***

Já no Salão de Ideias durante a programação da Feira do Livro, Eliane Brum encerrou sua participação lendo “Menina Quebrada”, uma crônica que escreveu para sua afilhada, deixando eu e quase toda a plateia com os olhos cheios de lágrimas. Vale a pena a leitura!

 

 

5 comentários sobre “Os desacontecimentos de Eliane Brum

  1. Nossa, muito tocante as falas de Eliane. Nos faz parar pra pensar e tentar pesar o que vale mais na vida, que é um espaço de tempo tão curto. Sou artista plástica e ao mesmo tempo que desejo essa liberdade de poder criar no meu tempo e sobre o que me der na telha, tenho medo dessa liberdade… somos criados a vida inteira para não sermos tão livre assim, e se formos, parece que o que não faltarão serão pessoas a apontar os dedos indicadores para você e suas escolhas “não-seguras”.
    É preciso muita coragem. Admirável esse depoimento.

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