Vida que segue

vidaquesegueSaiu cedo de casa. Teve insônia a noite toda e já não aguentava mais ficar na cama. Eram 6h45. Muito cedo se considerasse que não tinha absolutamente nada para fazer o dia todo. Normalmente, neste horário, ela já começava a se preparar para enfrentar o trânsito da cidade grande rumo ao escritório onde trabalhava. Mas dois dias antes, tiraram dela a rotina.

No primeiro dia depois de ser dispensada – sem nenhum motivo aparente –, ficou completamente perdida. Havia passado a noite bebendo com os amigos que a levaram para distrair e chorar as mágoas (leia-se xingar os ex-patrões e alguns dos ex-colegas de trabalho até não se lembrar de nenhum palavrão que ainda não tivesse usado). Acordou assustada, às 11h30 do dia seguinte, com o telefone tocando. Não conseguiu atender. A cabeça doía e o corpo não saia do lugar. Mas deu um pulo, involuntário, quando viu o horário no rádio relógio que refletia no teto do quarto. Primeiro achou que tivesse perdido a hora, depois se lembrou de que já não tinha mais hora pra nada.

Ficou na cama até 14h23, quando o estômago roncou alto. Decidiu almoçar. Preparou um macarrão com molho pronto e salsicha e comeu até sentir que estava a um passo de passar mal. Pegou o controle remoto e ficou zapeando pelos canais da TV a cabo que teria por tempo limitado considerando o recente corte no orçamento. Em breve, teria que se contentar com os canais chatos da TV aberta. Acabou cochilando. Quando acordou já era quase 20 horas. Ligou para alguns amigos a fim de fazer uma segunda rodada de bebidas e xingamentos, mas ainda era terça-feira e ouviu não de todos, pois tinham que acordar cedo no dia seguinte para trabalhar.

Foi nesse momento que a tristeza apertou o peito com força e então derrubou as primeiras lágrimas. Enfiou-se debaixo do chuveiro quente e deixou a água correndo até que os olhos parassem de escorrer. Ficou ali por pelo menos uma hora. Sabia que era desperdício, mas naquele momento, não se importava. Resolveu ir para a cama acreditando que esse seria seu melhor remédio. Mas ao deitar antes das 22h30, ficou apenas vendo as horas passar.

6h45. Depois da insônia, enquanto caminhava, meio sem rumo, o celular no bolso de trás vibrou. Resolveu conferir, tomando cuidado, enquanto atravessava uma rua. Desempregada e atropelada seria demais. Viu que ainda fazia parte do grupo do trabalho no WhatsApp, então, não foi poupada de ler as mensagens de boas vindas que os ex-colegas davam à nova funcionária que, agora, ocupava seu lugar no escritório. Decidida, deixou o grupo mesmo sabendo dos murmurinhos que sua atitude causaria.

Continuou seguindo pelas ruas da cidade e enquanto ia, sem rumo, reparou na quantidade de vidas ao seu redor. O sol iluminava a manhã que começava. Os carros continuavam correndo para levar seus motoristas ao trabalho a tempo, os pontos de ônibus continuavam lotados, num café da esquina havia gente lendo o jornal com as notícias do dia, uma mãe levava o filho para a escola, gente séria, gente correndo, gente sorrindo como se nada tivesse acontecido há dois dias, com ela. Só então se deu conta de que não importava o tamanho de sua dor, angústia e sofrimento. A vida seguia sem dar tempo para que ela pudesse assimilar tudo o que havia acontecido.

Dois dias depois, havia outra em seu lugar. Tudo e todos seguiam o fluxo natural das coisas. E ela ainda caminhava, quase perdida, naquela que era sua cidade há muito tempo, esperando encontrar um botão de pause para que pudesse processar as informações necessárias antes de seguir em frente.

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