Máscaras

rainA quarta-feira pós-Carnaval amanheceu cinza. A chuva que caia do céu levava embora todos os momentos vividos nos dias de folia e deixava apenas o gosto da lembrança daquele Carnaval que, como diria Clarice Lispector, havia sido diferente dos outros. Eu me sentei em frente à janela, com uma caneca de café quente, e fiquei vendo a água bater no vidro.

Embora fosse contra todos os tipos de festa que celebram a data, um evento em especial havia chamado a minha atenção. “Carnaval em Veneza” era o tema anunciado no panfleto que peguei no semáforo. Um baile de máscaras e roupas a caráter, típicas do século XVIII. Tentador. Não teria samba, axé, nem as tradicionais marchinhas que tanto me incomodavam nos blocos de rua, no samba da avenida ou nas festas dos clubes.

O salão a céu aberto estava completamente ambientado nas vielas de Veneza e não se via um rosto limpo e ninguém identificável. A música era contagiante e as pessoas se divertiam como se aquele som estivesse entrando em suas veias. Todos pulavam, dançavam, iam de um lado a outro, cercados por amigos. Só se via gente alegre e sorridente. Até que no meio de tanta gente, em um canto mais escuro, um par de olhos verdes, brilhantes como dois diamantes perdidos, chamou minha atenção.

Nossos olhares se cruzaram e abaixei a cabeça, tímida. Não que fosse possível me reconhecer. Eu estava apenas com os olhos e a parte inferior do rosto de fora, ainda assim. Mas o olhar dele era tão intenso, que não consegui sustentar. Segui em frente e fui me misturando à multidão. Entre um empurrão e outro, uma pessoa esbarrou em mim, mais proposital do que casualmente. Ia me desculpar quando os vi novamente.

Ele não disse nenhuma palavra, mas seus olhos me chamavam, me convidavam a segui-lo e eu fui. Ele ia na frente, me guiando, e constantemente virava para trás para ver se eu o acompanhava. A cada vez que nossos olhares se cruzavam, algo se remexia dentro de mim. Era como se um vento frio me atingisse no estômago e eu não conseguia fazer essa sensação parar.

Seguimos até um ponto e então paramos repentinamente. Ele se virou para mim e me ofereceu sua mão. Quando segurei, ele me puxou para perto e começamos a dançar. Juntos, seguíamos o ritmo de uma nova canção que havia acabado de começar. Estávamos perto dos músicos, que também seguiam caminhando pelos becos em meio à multidão. A alegria era mais intensa ali, junto deles, e então, o dono daquele misterioso par de olhos verdes me ofereceu seu sorriso. Todo o espaço ao nosso redor se iluminou e algo dentro de mim acendeu também.

O tempo passou e eu nem percebi. Já não aguentava mais minhas pernas de tanto que dançamos e andamos por entre as vielas reproduzidas no grande salão aberto. Estávamos sentados em um canto, no chão, assistindo a festa que continuava, nos encantando com a alegria daquelas pessoas e extasiados pela forma como havíamos nos mantido envolvidos um com o outro, durante toda a noite, de uma forma tão misteriosa. Não havíamos dito uma única palavra se quer, nem mesmo havíamos deixado nossas máscaras. Éramos uma incógnita.

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De repente, o lugar começou a esvaziar. Aos poucos, os grupos, até então cheios de energia, se renderam ao cansaço e foram deixando Veneza e voltando às suas vidas normais. A música começava a perder o ritmo e ficava cada vez mais lenta.

Nos dirigimos para a porta do salão, de mãos dadas. Lado a lado nos olhávamos e sorriamos como se fossemos cúmplices de um mistério não revelado. Virei-me para ele e pedi “me diga pelo menos o seu nome”. Ele não disse. Apenas colocou uma mão em meu rosto e se inclinou em minha direção me calando com um beijo silencioso. Ao se afastar dos meus lábios, parou de frente pra mim e me encarou. Seus olhos verdes me olharam, profundamente, uma última vez e era como se lesse mergulhasse dentro de mim e lesse todos meus segredos.

Eu o assisti, por um tempo, enquanto ele ia embora. E então, parti também.

Na quarta-feira, a rotina pós-Carnaval começava a ser retomada aos poucos. O mundo ia entrando novamente nos eixos e eu continuava olhando para fora, para a chuva caindo, e, entre as gotas, suspeitava ter visto um par de olhos verdes na rua. 

 

6 comentários sobre “Máscaras

  1. Sempre cheia de mistérios… ¬¬ Mas acho que os olhos eram azuis, tu se enganou! kkkkkkkkk

    A música ficou em excelente sintonia com o texto!

    “Eu me sentei em frente à janela, com uma caneca de café quente, e fiquei vendo a água bater no vidro.” Me senti muito dentro dessa cena! =)

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