A estranha verdade das ruas

Ele era só mais um estranho com quem ela cruzara casualmente na rua. Ela o evitou pelos motivos que faria com que qualquer um o evitasse. Ele estava sujo, imundo na verdade, com a barba por fazer há um bom tempo e muito provavelmente um pouco embriagado, considerando o andar cambaleante. Ela se preparou para desviar.

– Cadê o sorriso, moça?

Continuou caminhando, de cabeça baixa, tentando evitar ao máximo o estranho.

– Num precisa tê medo, dona. Num tiro pedaço. Só num gosto de vê as pessoa triste.

Ela arqueou a sobrancelha e simulou um sorriso para não deixá-lo tão no vácuo e ia seguindo em frente quando ele continuou.

– Perguntam pra eu porque moro na rua. Nem sei, já nem lembro. Mas vejo tanta gente com casa, carro e todos dente na boca triste, que acho mió sê assim mesmo. Morá na rua. Tô cada dia num lugá diferente, conheço gente diferente o tempo todo e quando alguém começa a me conhecê mió, eu já tô de saída. É bom assim, num dá tempo de ninguém me magoá.

Ela parou quando começou a ouvir o discurso. Com suas roupas caras, de grife, e um celular caro no bolso de trás da calça, o medo foi subtraído pelo interesse e pela curiosidade. Pela verdade das ruas.

– É isso, num é moça? Foi uma pessoa que deixô a dona assim, com os óio sem brilho. Essa cara de triste. Sempre é. Sempre é elas que faz isso com a gente. Liga não. Quando alguém te deixá assim, sai pelas rua, vai andando devagar e óia pro céu. Num tem coisa mais bonita que isso. Faz nós esquece do mal que tentaro nos fazê. Faz um bem danado.

A essa altura, ela já estava de frente para ele, o encarando e prestando atenção em cada palavra daquele estranho de português errado. Como podia um estranho tão estranho lê-la daquela forma? Como foi que ele viu os olhos dela mesmo quando ela estava evitando olhar até mesmo para a sombra dele?

– Eu faço isso. Saio por aí. Que nem agora. Cê já tá sabendo demais de eu. Vô embora antes que ocê me magoe.

Ele saiu andando na direção oposta a que ela ia antes. Ela ainda ficou parada ali tentando entender o que havia sido aquilo, aquele momento, aquelas palavras. Saiu andando em direção ao rumo que tomara antes.

Olhou pro céu e sorriu.
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