Pequeno Conto Póstumo

Eu já sabia desde o momento em que acordei. Inconscientemente, mas sabia.

Levantei da cama pouco depois das 7 horas, depois de ter desligado o despertador que me acordou com o locutor de uma rádio anunciando o feriado “Bom dia, hoje, quarta-feira, dia 02 de novembro de 2011, feriado de Finados”.

O desejo de continuar debaixo das cobertas era imenso, mas a profissão que escolhi não me permitia o luxo de folgar no feriado.

“Ânimo!” pronunciei para ninguém além de mim mesma quando estava à frente do espelho do banheiro.

Me vesti, segui as regras de higiene e saboreei o último pedaço de um delicioso bolo feito pela minha mãe, uma cozinheira de mão cheia. Raspei a assadeira, coloquei água dentro e terminei em um único gole o café preto e quente que desceu queimando a garganta.

Voltei ao quarto e peguei um caderno cheio de papéis com rabiscos de coisas que constantemente me vinham à cabeça.

Ao olhar para o relógio, 7h45, resolvi sair para não correr o risco de chegar atrasada.

Guardei o caderno entre os livros do armário e nem vi que deixei cair um papel, mas lá estava e lá ficou, próximo ao pé da cama, uma carta, uma das muitas que escrevo para não mandar para ninguém mesmo que o destinatário esteja claramente definido.

Carta a mim mesma para daqui 30 anos, carta ao amigo que foi embora, carta ao amor que não resistiu ao tempo, carta aos futuros filhos que nem sei se terei e ela, a que ficou para trás nesta manhã, carta (de despedida) aos meus pais.

Eu disse, eu já sabia mesmo que inconscientemente e tudo conspirou para que o plano superior fosse magistralmente seguido.

Antes de sair, fui ao quarto dos meus pais, que acordaram com o meu barulho matinal, mas não ousaram sair da cama, dei-lhes um beijo, o que não era comum, falei tchau e fui embora.

Desci o elevador, liguei o carro, esperei o motor esquentar e sai.

Passei em frente ao primeiro posto do caminho entre a minha casa e o meu trabalho e vi jovens que ainda não haviam terminado a noite de véspera de feriado. Alguns bebendo, outros jogados no chão sujo, outros se beijando.

Prossegui.

No cruzamento entre duas avenidas, olhei para um lado, olhei para o outro e depois que o único carro em circulação passou, fui em frente e então não vi ninguém, só ouvi.

Ouvi o barulho do motor em alta velocidade. E fiquei ali, no meio do cruzamento, parada, esperando.

Não, eu não pensei em reagir. Já estava tudo programado, eu não tinha o que fazer, como eu disse, eu já sabia. 

O barulho ficava cada vez mais alto conforme ia se aproximando e depois nada.

Anúncios

4 comentários sobre “Pequeno Conto Póstumo

  1. x_x apesar de ser mórbido é “muuuito legal”! Seu jeito de escrever me prende cada vez mais 😉
    Escreve um conto de terror pra mim? =)
    Beijão

    ps: vc tem que escrever no fim do seu texto – “nunca tente fazer isso em casa” hhihhiih brincadeirinha….ADOREI! beijos

  2. Tudo bem aí, né Fran? Nossa, que realidade profunda! Vi toda a cena e vc era protagonista… o.O Muito bom e prende meeeeesmo! 😀
    Bjuuus

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s