A vida é uma ausência – Annibal Gama

“Não é preciso que você diga “até uma outra vez”. Ou “hasta la vista”, nem “au revoir”. De qualquer modo, você vai embora, e reencontrar quem ficou, ou quem também partiu, é quase impossível. Se por acaso, mais tarde, você a reencontra, ou o reencontra, são outros. Talvez você pense que é o mesmo; mas não é, você também mudou.

O que ficou, com uns e com outros, são lembranças. Pensa que são exatas, fiéis? Engana-se redondamente. Elas plasmaram-se de fantasias, da imaginação. Algumas são obscuras; e todas, enganosas. O que você viveu, acresceu-se, ou diminuiu. Quando você supõe que fez papel de valente, na verdade foi covarde. Você traiu, você mentiu, você fraudou, e todos fizeram as mesmas coisas. O que você obteve, você perdeu; e o que não obteve, não conseguiu, é isto que permanece.

Nenhuma cor permanece. O branco vai-se tisnando de amarelo, o vermelho desbota, o azul é fugidio. As casas erguidas para durar são demolidas. Aquele coração que você gravou no tronco de uma árvore, aqui em baixo, e dentro dele as palavras “eu te amo”, foi lá pra cima, e você não o vê mais. Ou a árvore secou e foi derrubada.

Só o galo canta, num quintal que já não existe, o mesmo canto.

Quando a noite sobrevém, você ouve os ruídos. São de madeira velha dos móveis, que rangem. Ou dos degraus da escada, que gemem, quando você sobe por ela.

– Quem está ai?

– Não está ninguém.

Você também não está. Você já foi embora.

A vida é uma ausência.”

*          *          *

Li esse texto no jornal do fim de semana e mais do que ter gostado, me identifiquei. A gente tá sempre procurando algo mais. Não é fácil querer mais do que está ao seu alcance. Não é simples se conformar com o que se tem. E pior ainda é esse sentimento de vazio que fica pelo que não temos, ou pelas lembranças que acabam sendo só nossas, criadas na nossa versão, acrescidas da nossa opinião, dos nossos sentimentos exclusivamente pessoais, sempre vistas de um único ponto de vista. A sensação de que tudo se perde no tempo, no espaço, na rotina, no cotidiano. Nunca se sabe o que vai acontecer ao virarmos a esquina. Será que eu vou voltar? Será que ele/a vai voltar? E tudo que fazemos, tudo que pensamos…ninguém sabe. Os medos, os sonhos, a esperança. Tudo ausência.

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5 comentários sobre “A vida é uma ausência – Annibal Gama

  1. Aiiiiaia…enxuga o olho Maria Julia…
    muito triste porém realista….e no fim você completou e disse tudo.
    Aaaaaiai flashbacks e reflexões….
    Vou até fazer um post disso. Você é foda. Amo seus textos
    super parabéns
    bjs

  2. Pingback: Momentum reflexão… « Pela minha via

  3. Também me identifiquei. E o pior de tudo é não nos preocuparmos com isso todos os dias… a gente vive tudo de uma vez. Ou melhor dizendo, nada de uma vez.

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