A mulher de…

Nós, donas do mundo

Não sou feminista, mas também não curto essa de DIA da mulher. Dia da mulher é todo dia assim como dia das crianças, das mães, dos pais, dos namorados. Afinal, não se é nada disso só uma vez por ano.

Ainda assim, deixo aqui minha homenagem a todas as mulheres com um texto que adoro do grande Marcelo Rubens Paiva.

É grande, mas vale a pena.

A mulher de…

Marcelo Rubens Paiva

“A mulher de 14 anos é garota, apaixonada pelos pais, tios e avós, pelo cachorro, pelos professores e amigas, pelo recreio e jardim, pelas abelhas que vivem nele, pelo travesseiro molinho de fronha de bolinhas, por sorvete de morango e esmalte rosa.

A garota de 16 anos é quase mulher, vive um momento novo, é olhada de outra maneira, maneira diferente da que está acostumada: provocada. E apaixonada pelo vizinho que joga vôlei na seleção sub-20 e tem uns cabelos desalinhados e uma namorada ciumenta, com quem sempre briga no pátio do prédio, e com quem sempre faz as pazes depois de ela chorar 45 minutos ininterruptos.

A garota-mulher de 17 anos conhece no cursinho um garoto de 17 anos, por quem se apaixona. Namoram. O primeiro grande namorado. Continua apaixonada pelos pais, amigas, tios, avós, cachorro, que sente que ela já não passeia com ele como antes, pela escola e jardim, onde se deita na grama para pensar, pelo travesseiro molinho, que dorme entre as pernas agora. E nem liga para o jogador de vôlei, que está noivo daquela mala. Usa esmalte vermelho, agora.

A mulher de 18 anos não namora mais aquele carinha do cursinho, moleque demais. Descobre que gosta de beber e dançar, e está apaixonada por um guitarrista. Vai a todos os shows da banda dele, canta as músicas de cor. Mas o músico, sempre bêbado, deita-se com ela e dorme, deita-se com ela e com outras; ninguém é de ninguém. Ela se pergunta se com as outras ele é mais carinhoso. Usa esmalte roxo.

A mulher de 19 anos sente uma atração forte pelo sócio do pai, sensação que a deixa perplexa, pois conhece o cara desde pequena. Sente uma atração especial por muitos homens, como se quisesse provocá-los, seduzir sem culpa, mas não é paixão pelo outro, é atração pela vida, é prazer pela reação que sua presença causa nos homens. Ela está apaixonada pela paixão e poder.

A mulher de 20 anos está apaixonada por ela mesma. Dá um beijo no sócio do pai. Fica com ele numa festa. E fica também com uma amiga no banheiro, na mesma festa. Ela sabe agora como armar sua teia, como se apaixonar e deixar os outros apaixonados. Aproveita e fica com o jogador de vôlei, que largou o esporte e vende carros, não tem mais cabelos longos e se casou. E fica dias ouvindo Billie Holiday.

A mulher de 21 anos quer beijar todo mundo, seduzir todo mundo, viajar com todo mundo por todo o mundo, conhecer todas as tribos, dançar todas as músicas, comer todas as comidas, beber. Vai pro motel com o sócio do pai. Vira a sua amante. Ele é maduro, gostoso, tarado e divertido. Tem 30 anos a mais do que ela.

Aos 22, seu hobby é provocá-lo, quando ele e a mulher jantam na sua casa com seus pais. O que ela faz sentada à mesma mesa? Absolutamente nada. Nem olha. Nem fala. Como uma mocinha emburrada. Pára de sair com ele, depois que ele no motel a chamou de criança mimada.

A mulher de 23 anos descobre que sente mais por um arquiteto duro do que sentiu por todos os homens anteriores e fica absurdamente insegura, tonta. Namoram. Ela tem um ciúme injustificável. Sofre o tempo todo. Algo mudou. Descobre que não está apaixonada, que é muito mais. Descobre que está amando, mas tem dúvidas, é isso mesmo, amor?

Depois de um namoro intenso, com idas e vindas, a mulher de 26 anos larga o primeiro amor. Ninguém a avisou que amor traz dor. Fica um tempo sozinha, na balada, bebendo com as amigas, dançando. Está apaixonada pelo trabalho. É a sua prioridade agora.

Aos 27, volta pro arquiteto; ela estava carente. Mas não descarta os outros, especialmente o irmão gostoso do seu chefe, um cliente casado, o ex de uma amiga e o amigo de 18 anos da sua irmã caçula.

A mulher de 28 anos tem uma paixão absurda por um cara que faz cinema, com quem tem afinidades e química. Briga de novo com seu primeiro amor. É promovida, ganha mais. Namora o cara. Um namoro calmo, mas inseguro. Porque ela acha o cara demais. Ela e todas as vacas da cidade, que não param de ligar pra ele, mandar torpedos, e-mails, scraps no Orkut. O cara fez três curtas já e capta para um longa que ele mesmo roteirizou.

A mulher de 29 anos, pela primeira vez na vida, encontra um cara com quem pensa em se casar, o cineasta, e se sente muito insegura. Muito apaixonada. Muito mulher. Por isso, volta a sair com o ex, o arquiteto duro. Sai com os dois. Surpreendentemente, na véspera do Natal, briga com os dois. E vai sozinha pra Bahia, com uma pilha de livros de poesia (Sylvia Plath, T.S.Elliot e Leminski). Escreve no seu diário: ‘I don’t fell like a part of anything.’

A mulher de 30 anos não é apaixonada por ninguém, quer apenas concluir o mestrado e passar um tempo em Barcelona. Não quer se casar, nem pensa em engravidar. Amor é para profissionais. Fica com um cozinheiro catalão, perdão, um chef de cozinha. E morre de saudades do Brasil. E do seu cachorro, que morreu. Pinta as unha de preto.

A mulher de 31 cansa de ser estrangeira, volta ao Brasil e quer se casar, mas não com o catalão, que não sai da Espanha. Ela volta pra sua cidade, seu País, aluga um apê nos Jardins. Ela sabe que o ideal é um carinha bonzinho, que lhe dá segurança, que pode ser um grande pai. Liga pro ex, o primeiro amor, que conheceu aos 23 anos, largou a arquitetura e trabalha com o pai, que fabrica esmaltes. Era o único com quem trocava e-mails de Barcelona. Ela, pouco a pouco, seduz, e ele se deixa levar. Namoram. Todos os amigos recriminam: ‘De novo?!’ Dane-se o mundo. Casam-se. Nada oficial; ele vai morar com ela.

A mulher de 32 anos apaixona-se pelo filho que acaba de nascer. A coisa mais fofa do mundo. Vai ao cinema quando pode. Em vez de assistir ao filme do ex-namorado cineasta, que estreava, entra na sala ao lado.

A mulher de 32 anos se apaixona pelo filho que acaba de nascer; a coisa mais fofa do mundo. Tudo bem com o marido. Ele trabalha na empresa do pai. Conheceram-se quando tinham 23 anos. O seu primeiro namoro sério, com idas e vindas, interrupções e mal-entendidos. Casar é duro, ela descobre. Casamento é outra praia. De tombo e correntezas. Casamento é insistir num projeto contra o que as tentações conspiram.

A mulher de 33 anos está firme no trabalho, tem babá, uma infra legal e o marido que é dedicado, tão apaixonado pelo filho, que até dá um certo ciúme. Eles não têm aquela vida sexual de antigamente. Jogam gamão na casa de amigos. Não querem, de jeito nenhum, que o filho atrapalhe a rotina de um casal padrão.

A mulher de 34 anos se apaixona pelo novo filhinho, o segundo, que figura, que lindura, que fofura… O casal compra uma tevê de plasma enorme, com um som potente. Convidam amigos. Agora, ele cozinha, abre vinhos; fez até curso com um sommelier famoso e comprou aquela geladeirinha própria. Pensam em construir uma piscina nos fundos para as crianças. No Natal, ela dá um chapéu de chef de cozinha com o nome dele grafado. Mas não ganha presentes. De ninguém.

A mulher de 36 se pergunta se é ainda apaixonada pelo marido bonzinho. Tem sonhado muito com outros homens, sonhos eróticos e proibidos, loucos e sem sentido, sonhos que nem uma sonhadora entende. Um sonho erótico pode perturbar mais do que uma noite de amor, porque não se escolhe o personagem. Através do Orkut, acha alguns casos do passado. Como o guitarrista que namorou, que atualmente é de uma igreja fundada por surfistas. Corresponde-se com ele. Chega a marcar um encontro numa livraria. Mas ela não vai.

A mulher de 37 anos tem uma rotina estafante: casa, trabalho, filhos, marido, academia, pais doentes, a construção da piscina, que nunca termina, e cursos de mitologia. Começa a ir sozinha aos cinemas às tardes, já que o marido vive de aeroporto em aeroporto. Numa tarde, assiste ao segundo filme do antigo namorado cineasta, o cara com quem ela teve mais afinidade, a última paixão antes de se casar. Ficou possessa quando se viu na personagem do filme. O enredo era sobre ela! Ele também não a esqueceu. Possessa e vaidosa. Na calçada, diante do pipoqueiro, liga para ele. Surpreendentemente, ele atende, é o mesmo número, tem ainda aquela voz rouca, que acelera o seu coração. Ele diz: ‘Vem pra cá agora!’ Em vez disso, ela compra pipoca e decide fazer terapia.

A mulher de 38 se apaixona pelo terapeuta, que, a informaram, é gay. Mas todos se apaixonam pelo terapeuta. Ainda mais por esse lacaniano gostoso e lindo de morrer. Também, por que foi escolher justamente ele? Resolveram discutir essa maluquice numa sessão, quando, antes do ponto crítico, ouve a confissão que a abala: o terapeuta também está apaixonado por ela.

A mulher de 39 anos está apaixonada pelo amante lacaniano, com quem se encontra semanalmente, especialmente nos cinemas, em que se pegam por duas horas na última fileira comendo pipoca. Há um ano, ela não transa com o marido. Desconfia que o marido tem outra. Briga com o amante. Resolve se dedicar à família, à qualidade de vida, ao corpo: malha, corre, faz meditação, massagem e, vez por outra, um ebó para Iansã. Pára de comer pipoca.

A mulher de 40 anos, ao acordar numa tarde chuvosa, encontra o marido na sala com três malas, que diz: ‘Precisamos conversar.’ E recebe a notícia de que ele está apaixonado por uma aeromoça de 24 anos da BRA e vai se mudar para o flat dela. Enquanto ele enumera os motivos, ela pensa: ‘Da BRA?! Por que não da British ou Air France?’ E fala uma frase que causa no marido um ataque de risos: ‘Agora que acabou a reforma da piscina?’

A mulher de 41 anos liga para o terapeuta, ex-amante, sai com ele e diz que quer ter um filho. O cara, apesar de lacaniano maduro, dá um sumidão sem classe.

A mulher de 42 anos sai com as amigas para beber e dançar. Vai a lugares de gente jovem, recebe cantadas de moleques, sai com alguns deles: um escritor bissexual de 25 anos, um DJ dinamarquês todo tatuado, um judeu que toca salsa no piano de um bar cubano.

Aos 43 anos, tomando café nos Jardins, reencontra o ex-namorado, o cineasta, que está com o terceiro longa a caminho de Cannes. Tomam quatro cafés. Falam de todos os filmes que viram na década. Ele finalmente pergunta por que ela o largou. Ela sugere pedir a conta. Vão a um motel imediatamente. Vão para Cannes dois dias depois; ele faz parte do festival de cinema. Ela se diverte com o glamour da cidade, com toda a atenção que recebem e com o charme e gentilezas do ex. Mas detesta seu terceiro filme, que passa na mostra paralela. Detesta tanto, que volta na manhã seguinte para São Paulo.

O cineasta brasileiro de três longas sorri quando lê o bilhete entregue no hotel com um champanhe e flores da acompanhante pedindo desculpas, afirmando que aquele mundo não era dela, que ela ficou lisonjeada pelo convite, que a França é tudo, mas que voltava para a sua vida e filhos. Ele sabe que ela não gostou do filme. Sentiu isso na première e no jantar posterior. Ele nem pensou em fazer as malas, correr para o aeroporto. Não deixaria sua agente para trás, que montara uma agenda com encontros importantes, contratos, roteiristas, produtores e um café da manhã com Scarlett Johansson, que falou sem parar, enquanto ele se lembrava da ex.

Fim do festival. Ele pega o avião para o Brasil. Em São Paulo, dirige-se direto para a casa da mulher de 43 anos que tanto ama. Abre a porta um menino num skate, seguido por um menor vestido de Batman. Aparece a mãe que, ao vê-lo, sorri sem graça. Ele entrega uma pilha de recortes de jornal. Ela lê de relance. São críticas em várias línguas arrasando com o filme. Ela ri e apresenta os filhos. O almoço está na mesa. A mulher de 43 anos então pergunta por que o cineasta de três longas não se junta a eles.”

E você, que mulher é?

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